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{"id":237,"date":"2012-05-15T06:31:18","date_gmt":"2012-05-15T09:31:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.salipi.com.br\/site\/?p=237"},"modified":"2012-05-15T06:31:18","modified_gmt":"2012-05-15T09:31:18","slug":"olhares-desconfiados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.salipi.com.br\/site\/olhares-desconfiados.html","title":{"rendered":"Olhares desconfiados"},"content":{"rendered":"<div class=\"pf-content\"><figure id=\"attachment_235\" aria-describedby=\"caption-attachment-235\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.salipi.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cineas-Santos-foto-atual.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-235\" title=\"Cineas Santos - foto atual\" src=\"http:\/\/www.salipi.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cineas-Santos-foto-atual-300x229.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"229\" srcset=\"http:\/\/www.salipi.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cineas-Santos-foto-atual-300x229.jpg 300w, http:\/\/www.salipi.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cineas-Santos-foto-atual-250x191.jpg 250w, http:\/\/www.salipi.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cineas-Santos-foto-atual.jpg 350w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-235\" class=\"wp-caption-text\">Cineas Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 coisa de dez anos, conheci um casal carioca que, ao visitar o Piau\u00ed, perdeu-se de amores por Teresina e aqui fincou ra\u00edzes. Ele, ex-funcion\u00e1rio da Petrobr\u00e1s; ela, professora aposentada. Filhos crescidos, situa\u00e7\u00e3o financeira confort\u00e1vel, os dois podiam dar-se ao luxo de morar em qualquer lugar do pa\u00eds. Optaram pela Chapada do Corisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certa feita, o cidad\u00e3o me disse: \u201cProfessor, a paisagem humana do Rio de Janeiro estava me fazendo muito mal. A t\u00e3o decantada cordialidade do carioca tornou-se uma fal\u00e1cia. Todos olham a todos com muita desconfian\u00e7a. Pelo menos para mim, \u00e9 imposs\u00edvel viver num lugar assim. O que mais me fascina em Teresina \u00e9 a hospitalidade dos teresinenses, o jeito sossegado de agir e o olhar de quem confia\u201d. A ex-professora encantava-se com a cadeira de espaguete na cal\u00e7ada: \u201cQue cena mais bonita! Gente sentada na porta das casas, conversando, olhando a vida. Isso refor\u00e7a os la\u00e7os que caracterizam uma comunidade\u201d, afirmava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo e os contratempos nos separaram: perdi o casal de vista. Na semana passada, encontrei-me com o cidad\u00e3o. Ao me ver, n\u00e3o se conteve: \u201cProfessor, o que fizeram com a nossa cidade? Foram necess\u00e1rios mais de 40 anos para que se desconstru\u00edsse o tecido comunit\u00e1rio do Rio de Janeiro. Aqui, isto se fez em menos de dez&#8230;\u201d Indescrit\u00edvel o ar de desencanto do cidad\u00e3o. A mulher, segundo ele, voltara ao Rio no in\u00edcio do ano. Imposs\u00edvel convenc\u00ea-la a permanecer em Teresina. \u201cSe \u00e9 para viver \u2018protegida\u2019 por cercas el\u00e9tricas, enfrentando engarrafamentos, olhando as pessoas com medo e desconfian\u00e7a, volto para a minha cidade onde, pelo menos, a paisagem f\u00edsica continua linda\u201d, sentenciou. Meu amigo est\u00e1 vendendo o que construiu aqui e pretende voltar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem saber o que dizer, brinquei: feliz de voc\u00eas que t\u00eam a op\u00e7\u00e3o de voltar para sua cidade de origem. Eu tamb\u00e9m faria o mesmo n\u00e3o fosse o meu Campo Formoso apenas uma met\u00e1fora boiando na mem\u00f3ria. Gostando ou n\u00e3o, estou condenado a viver na Chapada. J\u00e1 n\u00e3o tenho idade nem disposi\u00e7\u00e3o para come\u00e7ar nenhum projeto de monta. Abracei-o e desejei-lhe boa sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minhas irm\u00e3s, meus irm\u00e3os, permitam-me o desabafo: decididamente, n\u00e3o aprendemos nada com os erros cometidos pelos outros. Teresina segue, imp\u00e1vida, copiando o que h\u00e1 de pior nas grandes cidades brasileiras. Exemplos? Os dois rios que abra\u00e7am a cidade foram transformados em escoadouros dos efluentes que produzimos; quintais s\u00e3o engolidos por supermercados; casar\u00f5es seculares transformam-se em estacionamentos, e os autom\u00f3veis disputam cada polegada de ch\u00e3o com a f\u00faria de mil dem\u00f4nios. Polui\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, medo e olhares desconfiados. Sem querer ser pessimista al\u00e9m da conta, fecho com o poeta: \u201cTenho pena dos que v\u00e3o nascer\u201d.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 coisa de dez anos, conheci um casal carioca que, ao visitar o Piau\u00ed, perdeu-se de amores por Teresina e aqui fincou ra\u00edzes. Ele, ex-funcion\u00e1rio da Petrobr\u00e1s; ela, professora aposentada. Filhos crescidos, situa\u00e7\u00e3o financeira confort\u00e1vel, os dois podiam dar-se ao luxo de morar em qualquer lugar do pa\u00eds. Optaram pela Chapada do Corisco. 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