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Permínio Asfora – o eterno nômade

Escritor Permínio Asfora
Escritor Permínio Asfora

Filho de imigrante Palestino, Permínio de Carvalho Asfora, piauiense nascido em Valença do Piauí em 12 de julho de 1913, é o primeiro descendente de árabe a escrever um livro no Brasil. Sua trajetória literária dividida com longas e breves passagens pelos maiores jornais do país será revisitada em 2013 como parte das comemorações de seu Centenário em todo o Brasil.

O Salão do Livro do Piauí (SALIPI), previsto para acontecer no período de 02 a 09 de junho deste ano dedicará uma atenção especial a Permínio Asfora, que recebeu da escritora Raquel de Queiroz, (contemporânea de sua geração) o apelido de “Eterno Nômade”. Além dele serão homenageados ainda o poeta Vinícius de Moraes e o cronista Rubem Braga por conta de seus centenários. O Patrono da 11ª edição do SALIPI é crítico literário Manoel Paulo Nunes, do conhecido Grupo Meridiano.

A Fundação Quixote ficará responsável pela reedição de um dos livros do escritor Permínio Asfora, o Fogo Verde, cuja primeira edição data de 1951. Noite Grande, obra ambientada no Piauí ganhou nova edição esse ano. “Publicado pelas Edições BibliASPA, (Noite Grande) é um romance sobre as tragédias enlaçadas de dois povos: do palestino, confrontado com o saque de sua pátria milenar; e do nordestino do alvorecer do Século XX, compelido a sobreviver ao latifúndio escravocrata da região dos carnaubais do Piauí”. Esta obra, marcada pela riqueza de enredo e personagens, inaugura o ingresso na literatura brasileira de um palestino como personagem central. Trata-se da primeira obra literária no Brasil que possui uma personagem palestina.

Durante o SALIPI os professores coordenadores do SALIPI, Jasmine Malta e Kássio Gomes, organizarão uma exposição com fotos, vídeos e livros de Permínio Asfora no estande da Dalmóbile. É nesse espaço e no bate-papo literário comandado pelo professor Luiz Romero que os livros do escritor serão relançados.

Permínio Asfora percorreu quase todo o Nordeste até desaguar no Rio de Janeiro, onde viveu e criou os filhos Murilo, Lúcio e Vólia, ao lado de sua esposa, D. Cacilda, em um confortável apartamento no Leblon. Antes de falecer em 2001, Permínio conversou com o Lúcio a respeito de um livro que estava escrevendo, e confidenciou que gostaria de encerrar a carreira literária com um livro ambientado no Rio. Depois de alguns meses Lúcio Asfora encontrou os manuscritos e passou a organizá-los pacientemente. Em 2005 veio a lume a publicação póstuma de “Confidências no Largo da Segunda-Feira”, tendo o Lúcio figurado como uma espécie de coautor do livro.

O “Confidências no Largo da Segunda-Feira” foi lançado no Piauí no mesmo ano, por ocasião do SALIPI. Agora é a vez de Noite Grande e Fogo Verde, que virá acompanhado de um site oficial sobre Permínio Asfora.

O décimo Degrau

Pode parecer estranho, mas não é força de expressão: realizar a 10ª edição do SALIPI está sendo mais complicado do que foi fazer a primeira. Explica-se: em 2003, tínhamos apenas a vontade e a coragem de ousar. Sem qualquer experiência, sem dinheiro, sem o apoio de grandes grupos empresariais, decidimos dar um passo maior que as pernas. O salão poderia ter morrido no nascedouro sem maiores consequências. Teria sido apenas mais uma das muitas tentativas que não vingaram. Hoje, ninguém mais se lembraria do natimorto.

O problema é que o SALIPI, para surpresa até dos organizadores, deu certo. O povo do Piauí adonou-se dele, não nos deixando outra opção a não ser continuar. Se o projeto deu certo, qual é o problema? Bem, pra começo de conversa, não podemos continuar oferecendo ao público uma réplica do que se fez na experiência inicial. O público, certamente, quer e merece sempre muito mais. Aí reside o problema: oferecer mais tem custo, e as fontes mantenedoras do Salão continuam as mesmas. Implica dizer: aumentaram as despesas sem o correspondente crescimento das receitas. O SALIPI, sucesso de público e crítica, sempre trabalhou no vermelho. Ao final de cada edição, o velho pesadelo: como pagar as contas? Enquanto estive à frente da Fundação Quixote, muitas vezes tive de tirar os magros caraminguás do próprio bolso para pagar despesas inadiáveis. O prof. Luiz Romero, em mais de uma oportunidade, fez a mesma coisa.

Nessa altura da conversa, os que torcem contra o SALIPI ( e não são poucos) dirão, com um sorrisinho cínico: “Se fosse tão ruim, os donos já teriam desistido”. Esse é o problema: os donos, ou seja, os piauienses que querem o salão vivo. O SALIPI não é propriedade da Fundação Quixote, não emprego nem “um negócio rentável” para quem o dirige. É um serviço realizado por quem não encara a vida como um simples exercício contábil.

É escusado afirmar que, sem a ajuda do governo do Estado, da Prefeitura de Teresina e de um punhado de parceiros, o Salão não se realizaria. Mas os que planejam e executam o SALIPI o fazem por amor. Como explicar, por exemplo, o gesto do Dr. Gisleno Feitosa que, durante a realização do evento, abandona sua clínica para dar plantão no SALIPI? Como explicar o desprendimento da professora Jasmine Malta que interrompe o seu doutorado para vir cuidar da molecada? Como explicar a atitude do prof. Kássio Gomes que deixa o seu município de origem – Valença – para assumir a direção da Fundação Quixote? Amor à causa, irmãos. Nada além.

Por tudo isso e muito mais, só nos resta uma saída: continuar fazendo o Salão do Livro do Piauí, evento que, ao longo de dez anos, já mudou o perfil do leitor piauiense. Decididamente, não podemos desistir. Longa vida ao SALIPI

Confira o conteúdo da Palestra do Professor Wellington Soares

O professor e organizador do SALIPI, Wellington Soares falou sobre a importancia de trabalhar a poesia em sala de aula. Foi um verdadeiro show de conversação e exposição literária. Passeamos com Camões, Fernando Pessoa, Torquato Neto, Mário Quintana, Carlos Drummondde Andrade, Patativa do Assaré e muitos outros.

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10 Anos de Salipi

Chico Pereira

Não é que tive outra vez a sensação, na última quarta-feira, de ser uma pessoa abençoada. Tudo por conta de mais um Salão do Livro do Piauí, do qual sou um dos organizadores, lançado em noite prestigiadíssima, no Palácio da Música. Acredito que os outros quixotes – Cineas, Romero, Jasmine, Kássio – tenham experimentado coisa semelhante. Embalados pela voz encantadora de Soraya Castelo Branco, quem sabe estivéssemos ouvindo também os sábios versos do poeta baiano: “Oh! Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro caindo n’alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar.” Já são agora dez anos, completados em 2012, semeando livros entre os piauienses, tanto no Salipi daqui como nos que depois surgiram no interior. Sem falar do tempão em sala de aula, celebrando o livro e incentivando o saudável hábito da leitura.

Contrariando essas profecias catastróficas, que remontam a longas datas, reafirmamos ali, em alto e bom som: “O fim do mundo é não ler”. E sugerimos, para abrir o apetite, a obra instigante de Francisco Pereira da Silva, nosso teatrólogo campo-maiorense, com peças ainda hoje encenadas nacionalmente, a exemplo de Raimunda Pinto, sim senhor; a prosa lírica e questionadora de Jorge Amado, o consagrado “Romancista do Cacau”, autor de Gabriela, cravo e canela e Capitães da areia, dois clássicos da literatura brasileira; e os textos eróticos e provocativos de Nelson Rodrigues, o saudoso e sempre atual “Anjo pornográfico”, com livros que insultam o falso moralismo burguês a partir dos títulos adotados, tais como Bonitinha, mas ordinária e Toda nudez será castigada. A viagem cultural será completa, sentado em poltrona ou deitado em rede, se o leitor tiver a brilhante ideia de botar um CD de Luiz Gonzaga para tocar.

Tomado gosto pelos autores homenageados, todos nordestinos da melhor qualidade, é hora de degustar também iguarias literárias de outras regiões, tanto deste imenso Brasil quanto de fora, a começar por Zero, do paulistano Ignácio Loyola Brandão, romance que renovou a moderna ficção brasileira, censurado pela ditadura e aclamado pelos críticos; os belíssimos contos reunidos em O voo da madrugada, do carioca Sérgio Sant’Anna, com seus personagens marcados pela solidão e a ponto de saltar no precipício; a envolvente narrativa de O filho eterno, do talentoso Cristovão Tezza, curitibano que levou prêmios importantes com esse texto que mostra a complexa relação entre um pai e o filho portador de Síndrome de Down; e os marcantes versos de Entre dois rios e outras noites, da poetisa Ana Luísa Amaral, voz feminina que desponta ultimamente na literatura portuguesa.

Se ainda for pouco, o Salipi tem outros nomes no cardápio deste ano, todos desembarcando em Teresina no mês de junho, mais precisamente no período de 10 a 17, quando a Praça Pedro II será tomada por um formigueiro de gente a fim de consumir livros e conversar com seus autores preferidos. O espaço do Theatro 4 de Setembro ficará pequeno, por exemplo, com tantos fãs querendo ouvir Bruna Lombardi falar sobre essa interessante combinação entre literatura e cinema. Ou, quem sabe, curiosos em ver a convidada cubana, Roxana Pineda, protagonizando um espetáculo de máscaras com textos de Eduardo Galeano. Noite memorável, realmente, a da quarta-feira passada, porque fizemos, além do lançamento oficial da 10ª edição do Salipi, uma merecida homenagem a dois piauienses que dedicaram sua vida a fomentar cultura em nosso meio: Marcus Peixoto e Helly Batista. Que eles continuem, com a generosidade que os caracterizava, a nos apoiar e incentivar, lá de cima.

 

Dia Nacional da Poesia

Dia Nacional da Poesia

Ao contrário de outras datas comemorativas, o Dia Nacional da Poesia passa em branco na vida dos brasileiros. No Piauí, essa realidade também não é diferente. Não fossem alguns de seus abnegados admiradores, incluindo os que a produzem, ele praticamente nem seria lembrado. Metido em afazeres mais urgentes e importantes, a maioria das pessoas não liga a mínima para esse tipo de manifestação artística, considerada geralmente “inútil” e “incompreensível”. Para completar o absurdo, o próprio comércio livresco silencia totalmente, incapaz de colocar na rua uma mídia criativa e ousada de incentivo à leitura de poesia. Mas, afinal, para que ela serve de fato? Diante de indagação tão frequente, nada melhor que prestarmos atenção nestes versos do poeta Chacal: “Nós que não somos médicos psiquiatras / nem ao menos bons cristãos / nos dedicamos a salvar pessoas / que como nós / sofrem de um mal misterioso: o sufoco”.

Fora algumas ações isoladas, quem não deixou a poesia cair, em Teresina, foi a Sociedade dos Poetas Por Vir, que resolveu celebrar a data com um animado sarau na Casa da Cultura, na última quarta-feira, para onde acorreram muitos dos amantes da poesia. A data de 14 de março é uma homenagem, como todos sabem, ao dia de nascimento do grande Castro Alves, poeta baiano engajado nas lutas políticas e sociais da sua época, bem como cultivador de um lirismo amoroso e sensual. Embora ainda restrito a poucos, ultimamente a poesia vem alargando seu público leitor, sobretudo depois dos saraus literários que pipocam no Brasil inteiro. Em nossa capital, a título de ilustração, destacamos os do Élio Ferreira, Cineas Santos, João Carvalho, Academia Onírica e o dos estudantes citados acima, todos imbuídos do mesmo propósito que “a poesia”, abraçando a tese do nosso talentoso William Soares, “não resolve / mas revolve”.

Pode até ser “inútil” a poesia, como querem alguns, mas que ela proporciona um bem danado na vida da gente, não resta dúvida. Aliás, nunca devemos esquecer que todas as outras manifestações artísticas se originam dela. Daí encontrarmos sua presença num filme inesquecível como “Cinema Paradiso”, do cineasta italiano Giuseppe Tornatore; no maravilhoso quadro “Abaporu”, da pintora paulista Tarsila do Amaral, tela que inspirou os modernistas de 22; no belíssimo registro “Beijo no Hôtel de Ville”, do renomado fotógrafo francês Robert Doisneau; na magnífica obra arquitetônica de Antoni Gaudí, mestre espanhol que resgata criativamente as imagens medievais; na sensacional música “Yesterday”, do genial quarteto de Liverpol. Bom é saber também que para ser poeta, no sentido amplo do termo, não é necessário complicar as coisas, mas apenas seguir o sábio conselho de Patativa do Assaré: “Pra gente aqui ser poeta/ Não precisa professor./ Basta vê no mês de maio/ Um poema em cada gaio/ Um verso em cada fulô”.

Agora façamos a louvação, num ato de reverência e gratidão, dos poetas que tornam a vida suportável e mais interessante, a exemplo de Manuel Bandeira, com seu lirismo terno e comovente. Não esqueçamos também Gregório de Matos, a demolidora sátira de versos contra os desmandos na Bahia. A paixão desenfreada pelo Piauí, em especial por Amarante, do inigualável Da Costa e Silva. A concisão vocabular e a denúncia social de João Cabral de Melo Neto. A ironia fina e o questionamento existencial de Carlos Drummond de Andrade, o mais consagrado dos poetas brasileiros. A postura sempre desafiadora de Torquato Neto, o nosso querido “Anjo torto”. A poesia sugestiva e musical de Cecília Meireles, com textos que tocam fundo a alma da gente. Sem falar dos temas nada “poéticos” de Augusto dos Anjos, o mau gosto transformado em poesia da mais alta qualidade. Enfim, Vinicius de Moraes, com seu amor eterno pelas mulheres, lindas, cheias de graça e, acima de tudo, despertadoras de desejos inconfessáveis. Viva a poesia, hoje e eternamente.

Centenário de Nélson Rodrigues

Wellington Soares - Arquivo FQ

Quando indagam sobre os critérios que levam alguém a ser considerado um grande escritor, geralmente respondo que o tempo, dentre outros, é o mais confiável de todos. Explico: caso um autor continue a ser lembrado depois de ter partido há vários anos, é sinal que a sua obra tem substância e não foi produzida à toa. Nelson Rodrigues, nosso maior teatrólogo, é um bom exemplo disso. Nunca ele foi tão lido e comentado na vida como 2012, ano em que se comemora seu centenário de nascimento. Além de Pernambuco, sua terra natal, a celebração da data toma conta do restante do Brasil, com os amantes do teatro e da boa literatura lhe rendendo justa e merecida homenagem. Até dezembro, seus fãs antigos, e os que surgem a cada momento, poderão matar saudade com a leitura de títulos reeditados e peças remontadas.

Que ninguém se iluda, porém, que vai amá-lo numa primeira leitura. Ao contrário, estranheza e revolta são os sentimentos que brotam de imediato. Afinal, Nelson Rodrigues não se propôs a mascarar a realidade, mas pintá-la nua e cruamente, com enfoque especial no ser humano, tema privilegiado em sua vasta obra. Não sendo diferente dos demais leitores, passei também por esse constrangimento ao ler O beijo no asfalto, uma de suas tragédias mais polêmicas. A história, que se passa no Rio, choca o leitor desde o começo: atendendo ao pedido de um jovem moribundo, Arandir se vê obrigado a beijá-lo na frente de todos, inclusive de um repórter de jornal sensacionalista, que estampa a foto na primeira página da manhã seguinte. Incompreendido no inocente gesto, ele acaba expulso de casa por Selminha e, depois, assassinado pelo sogro. Motivo: o velho, tomado por um ciúme doentio, não aceitava que Arandir houvesse beijado outro homem, e não ele.

Como visgo, os textos de Nelson Rodrigues nos mantêm preso desde o primeiro instante. Difícil é querer a liberdade depois de tamanho impacto e encantamento. Sua obra compreende dezessete peças de teatro, um romance e oito folhetins (seis assinados por “Suzana Flag”, um por “Myrna” e um com o seu próprio nome). Um grande número deles adaptado para o cinema e a televisão, como sempre despertando amor e ódio entre as pessoas, sobretudo ao abordar temas nada convencionais do tipo incesto, taras sexuais, adultérios e perversões comportamentais. Daí se compreender o epíteto de “O anjo pornográfico” recebido dos críticos e admiradores. Marco renovador da dramaturgia nacional, Vestido de noiva, peça de caráter psicológico, ainda hoje mexe profundamente com o imaginário cultural do nosso “respeitado” público.

Se como teatrólogo foi genial, inigualável se tornou como frasista, capaz de demolir arraigados valores perpetuados ao longo de nossa existência. Relembrar algumas de suas tiradas é uma forma de mantê-lo vivo entre nós, bem como de homenageá-lo em data tão significativa.

“Nenhuma mulher trai por amor ou desamor. O que há é o apelo milenar, a nostalgia da prostituta, que existe ainda na mais pura”.

“Todos nós somos mais ou menos infelizes. As angústias estão crispadas dentro de nós como víboras”.

“O amigo trai na primeira esquina. Ao passo que o inimigo não trai nunca. O inimigo é fiel. O inimigo é o que vai cuspir na cova da gente”.

“Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação”.

“Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata”.

“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda”.

“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.

Recomeço

Jasmine Malta
Jasmine Malta

Dez Coisas

Final de um ano, início de outro. O ciclo da vida em renovação. Avaliações, perspectivas, decisões. Vontade de fazer diferente, melhorar cada vez mais o que já está bom, e remodelar aquilo em desacordo. E vem o hábito das listas decimais. Faço as minhas, no limite ou fora dele.

O afastamento da sala de aula proporcionou uma capacidade produtiva maior ainda. Muitos textos foram escritos, análises realizadas, materiais publicados, desenhos concluídos, projetos gráficos elaborados, gravuras organizadas, e-mails descartados, rascunhos concluídos, cartas enviadas. O dia ficou mais cheio de ideias que foram materializadas no papel.

Morar em Natal trouxe uma experiência ímpar. Fiquei mais tempo com meus filhos, cuidei melhor da casa, tive bolo para as visitas, cozinhei coisas novas, queimei coisas antigas, desfrutei de um pouco da História do país, dirigi por avenidas largas, passei por poucos engarrafamentos, perdi o rumo algumas vezes, a árvores de luzes salvou, respirei o ar do Parque das Dunas, espirrei muito na praia, comi camarão até fartar, passeei em sebos, comprei mais livros, amei o sertão, acompanhei os meninos nas aulas de sanfona e de flauta, caminhei na areia, não vivi o b-r-o-bró.

Algumas coisas não farão falta. O mal hábito de não respeitar as filas, o fato dos motoristas não saberem a função da sinaleira, a mania de entabular conversa como se fosse o mais íntimo conhecido e ainda opinar sobre o não pedido, os atrasos, a falta de trabalhadores comprometidos, a política vergonhosa e corrupta, os escândalos no meio da rua por qualquer motivo, a chuva cotidiana que obrigava fechar as janelas em plena madrugada, a cara feia para quem não é da terrinha, os preços altos, a água com nitrato, as ruas sem calçamento, a cerveja quente e a comida fria.

Mas os amigos conquistados neste período são para toda a vida. Os professores do Programa de Pós-Graduação, os melhores orientadores, as melhores fontes. A escola das crianças, um porto seguro. Já a Medicina…Teresina resolve.

Foram muitos os livros lidos. Um merece olhares repetidos : “A Primavera do Dragão”, de Nelson Motta. Biografias estão entre as leituras mais queridas, e esta, é ímpar. Um dia só não bastou, a experiência deve ser outra vez desfrutada. Assim como as de Virginia Woolf e de Baudelaire.

Os livros não lidos já estão em fila, cada vez menor, para atravessarem a ponte do usufruto intelectual. Um deles, tem uma vida de preparação e coleta de dados para o pleno mergulho, treinado no espaço da UFRN. O preferido de Marilyn, a musa incompreendida e subestimada. Se não der certo, o volume de páginas pode servir como apoio aos mais “magrinhos”. Contudo, a intenção é que ele seja uma nova ferramenta para as aulas na UFPI. Esta, uma fonte de saudade provocada pela ausência dos alunos.

Os escritores que enviaram livros para serem analisados, podem ficar tranquilos, os comentários serão feitos e publicados. Estas dívidas, quitadas, serão mais uma fonte de gosto e uma renovação das relações amigáveis já estabelecidas.

O melhor de 2012 será ter Teresina todos os dias. Mesmo com as ruas apertadas, o trânsito absurdo, o calor anormal, alguns políticos duvidosos, a crescente falta de “verde” e o casario antigo sendo abruptamente destruído. Porém, a família está novamente reunida, os amigos ao alcance das mãos, os alunos nos encontros nas ruas, o banho de chuva é no quintal, o rio perto de casa, a caminhada é diária, a galinha e o carneiro são fartos, a paçoca é batida no pilão.

Independente da lista, ou da compartimentação laboral, uma coisa não será mudada : a paixão pelo Livro. Na militância, na vida profissional e nas atividades pessoais.

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Professora Mestra da Universidade Federal do Piauí, arte educadora e designer de interiores, membro do Colegiado de Livro,Leitura e Literatura/Conselho Nacional de Cuntura/MINC, organizadora do Salão do Livro do Piauí, Doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Olhares desconfiados

Cineas Santos

Há coisa de dez anos, conheci um casal carioca que, ao visitar o Piauí, perdeu-se de amores por Teresina e aqui fincou raízes. Ele, ex-funcionário da Petrobrás; ela, professora aposentada. Filhos crescidos, situação financeira confortável, os dois podiam dar-se ao luxo de morar em qualquer lugar do país. Optaram pela Chapada do Corisco.

Certa feita, o cidadão me disse: “Professor, a paisagem humana do Rio de Janeiro estava me fazendo muito mal. A tão decantada cordialidade do carioca tornou-se uma falácia. Todos olham a todos com muita desconfiança. Pelo menos para mim, é impossível viver num lugar assim. O que mais me fascina em Teresina é a hospitalidade dos teresinenses, o jeito sossegado de agir e o olhar de quem confia”. A ex-professora encantava-se com a cadeira de espaguete na calçada: “Que cena mais bonita! Gente sentada na porta das casas, conversando, olhando a vida. Isso reforça os laços que caracterizam uma comunidade”, afirmava.

O tempo e os contratempos nos separaram: perdi o casal de vista. Na semana passada, encontrei-me com o cidadão. Ao me ver, não se conteve: “Professor, o que fizeram com a nossa cidade? Foram necessários mais de 40 anos para que se desconstruísse o tecido comunitário do Rio de Janeiro. Aqui, isto se fez em menos de dez…” Indescritível o ar de desencanto do cidadão. A mulher, segundo ele, voltara ao Rio no início do ano. Impossível convencê-la a permanecer em Teresina. “Se é para viver ‘protegida’ por cercas elétricas, enfrentando engarrafamentos, olhando as pessoas com medo e desconfiança, volto para a minha cidade onde, pelo menos, a paisagem física continua linda”, sentenciou. Meu amigo está vendendo o que construiu aqui e pretende voltar também.

Sem saber o que dizer, brinquei: feliz de vocês que têm a opção de voltar para sua cidade de origem. Eu também faria o mesmo não fosse o meu Campo Formoso apenas uma metáfora boiando na memória. Gostando ou não, estou condenado a viver na Chapada. Já não tenho idade nem disposição para começar nenhum projeto de monta. Abracei-o e desejei-lhe boa sorte.

Minhas irmãs, meus irmãos, permitam-me o desabafo: decididamente, não aprendemos nada com os erros cometidos pelos outros. Teresina segue, impávida, copiando o que há de pior nas grandes cidades brasileiras. Exemplos? Os dois rios que abraçam a cidade foram transformados em escoadouros dos efluentes que produzimos; quintais são engolidos por supermercados; casarões seculares transformam-se em estacionamentos, e os automóveis disputam cada polegada de chão com a fúria de mil demônios. Poluição, violência, medo e olhares desconfiados. Sem querer ser pessimista além da conta, fecho com o poeta: “Tenho pena dos que vão nascer”.

A cara mais alegre do Piauí

Cineas Santos

Há trinta e três anos, por minha conta e risco, arrebanhei um pequeno grupo de jovens (Paulo Machado, Rogério Newton, Fernando Costa, Alcide Filho e Margô Coelho), formei uma trupe mambembe e embrenhamo-nos pelos sertões do Piauí. Objetivo: ver, ouvir, ensinar, aprender, conviver. Amontoados num velho fusca verde-sonho, fomos a Oeiras, Floriano, São Raimundo Nonato e José de Freitas. Por falta de dinheiro para a gasolina do fusca, arquivamos o sonho. À época, nenhum de nós sabia que estava lançando ali as sementes do projeto A Cara Alegre do Piauí. Pouco tempo depois, eu e o Paulo Machado passamos a ministrar cursos de literatura piauiense para professores no interior do Estado. Quando Elias Arêa Leão assumiu a Secretaria de Cultura do Piauí, montamos uma trupe bem mais encorpada e voltamos a mambembar pelos sertões. Finalmente, em 97, na cidade de Parnaíba, o poeta e professor Fernando Ferraz batizou a cabroeira com o nome de A Cara Alegre do Piauí, usando um argumento irrefutável: “Há séculos, mostramos sempre a cara triste do Piauí. O máximo que conseguimos foi a piedade de alguns e o escárnio da maioria. Chegou a hora de mostrarmos a face luminosa de nossa gente: a rica e multifacetada cultura do Piauí”.Com o novo rótulo, o projeto ganhou asas e percorreu praticamente todo o estado do Piauí, de Parnaíba a Guaribas.

O grupo enriqueceu-se, com a participação de músicos, coreógrafos, escritores, professores, ecologistas, etc. Hoje, somos 30 voluntários a serviço da educação e da cultura do Piauí. Tantas fizemos, que fomos tema de um programa especial da Globo News, realizado pelo poeta Claufe Rodrigues. Curiosamente, nunca nos sentamos para traçar um plano de trabalho. Como time que joga junto há muito tempo, ao entrar em campo, cada um sabe  o que vai fazer e faz  com engenho e arte.

No final do ano passado, o Cara Alegre foi contemplado com um ponto de cultura (FUNDAC – MINC). A partir de agora, mais que eventos esporádicos, poderemos dar continuidade às ações iniciadas quando da visita do grupo a determinado município. Inicialmente, vamos oferecer cursos de história do Piauí e literatura piauiense para professores da rede pública de ensino. Para os alunos, oficinas de xilogravura, violão e flauta doce. No campo da música, estamos iniciando a gravação de um DVD – Pássaros da Terra – com os músicos mirins do Piauí.

Atendendo a exigência do MINC, vamos adquirir o kit multimídia: máquina fotográfica, filmadora, notebook, data show, etc. Na sede do Projeto – Rua 7 de Setembro – 671, estamos montando um pequeno estúdio para gravação de CDs e DVDs.

É gratificante coordenar um projeto que conta com a participação de pessoas do nível de prof. Santana, Erisvaldo Borges, Paulo Machado, Fonseca Neto, Catarina Santos, Luíza Miranda, Rosinha Amorim, Halan Silva, Luiz Romero, Tânia Martins, Gabriel Archanjo, Geni Costa, Graça Vilhena, Carlos Martins, Vanda Queiroz, Wilker Marques, para citar apenas alguns. A filosofia do projeto continua a mesma: o saber só faz sentido quando compartilhado. Assim seja.