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O professor e organizador do SALIPI, Wellington Soares falou sobre a importancia de trabalhar a poesia em sala de aula. Foi um verdadeiro show de conversação e exposição literária. Passeamos com Camões, Fernando Pessoa, Torquato Neto, Mário Quintana, Carlos Drummondde Andrade, Patativa do Assaré e muitos outros.

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10 Anos de Salipi

Chico Pereira

Não é que tive outra vez a sensação, na última quarta-feira, de ser uma pessoa abençoada. Tudo por conta de mais um Salão do Livro do Piauí, do qual sou um dos organizadores, lançado em noite prestigiadíssima, no Palácio da Música. Acredito que os outros quixotes – Cineas, Romero, Jasmine, Kássio – tenham experimentado coisa semelhante. Embalados pela voz encantadora de Soraya Castelo Branco, quem sabe estivéssemos ouvindo também os sábios versos do poeta baiano: “Oh! Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia… / E manda o povo pensar! / O livro caindo n’alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar.” Já são agora dez anos, completados em 2012, semeando livros entre os piauienses, tanto no Salipi daqui como nos que depois surgiram no interior. Sem falar do tempão em sala de aula, celebrando o livro e incentivando o saudável hábito da leitura.

Contrariando essas profecias catastróficas, que remontam a longas datas, reafirmamos ali, em alto e bom som: “O fim do mundo é não ler”. E sugerimos, para abrir o apetite, a obra instigante de Francisco Pereira da Silva, nosso teatrólogo campo-maiorense, com peças ainda hoje encenadas nacionalmente, a exemplo de Raimunda Pinto, sim senhor; a prosa lírica e questionadora de Jorge Amado, o consagrado “Romancista do Cacau”, autor de Gabriela, cravo e canela e Capitães da areia, dois clássicos da literatura brasileira; e os textos eróticos e provocativos de Nelson Rodrigues, o saudoso e sempre atual “Anjo pornográfico”, com livros que insultam o falso moralismo burguês a partir dos títulos adotados, tais como Bonitinha, mas ordinária e Toda nudez será castigada. A viagem cultural será completa, sentado em poltrona ou deitado em rede, se o leitor tiver a brilhante ideia de botar um CD de Luiz Gonzaga para tocar.

Tomado gosto pelos autores homenageados, todos nordestinos da melhor qualidade, é hora de degustar também iguarias literárias de outras regiões, tanto deste imenso Brasil quanto de fora, a começar por Zero, do paulistano Ignácio Loyola Brandão, romance que renovou a moderna ficção brasileira, censurado pela ditadura e aclamado pelos críticos; os belíssimos contos reunidos em O voo da madrugada, do carioca Sérgio Sant’Anna, com seus personagens marcados pela solidão e a ponto de saltar no precipício; a envolvente narrativa de O filho eterno, do talentoso Cristovão Tezza, curitibano que levou prêmios importantes com esse texto que mostra a complexa relação entre um pai e o filho portador de Síndrome de Down; e os marcantes versos de Entre dois rios e outras noites, da poetisa Ana Luísa Amaral, voz feminina que desponta ultimamente na literatura portuguesa.

Se ainda for pouco, o Salipi tem outros nomes no cardápio deste ano, todos desembarcando em Teresina no mês de junho, mais precisamente no período de 10 a 17, quando a Praça Pedro II será tomada por um formigueiro de gente a fim de consumir livros e conversar com seus autores preferidos. O espaço do Theatro 4 de Setembro ficará pequeno, por exemplo, com tantos fãs querendo ouvir Bruna Lombardi falar sobre essa interessante combinação entre literatura e cinema. Ou, quem sabe, curiosos em ver a convidada cubana, Roxana Pineda, protagonizando um espetáculo de máscaras com textos de Eduardo Galeano. Noite memorável, realmente, a da quarta-feira passada, porque fizemos, além do lançamento oficial da 10ª edição do Salipi, uma merecida homenagem a dois piauienses que dedicaram sua vida a fomentar cultura em nosso meio: Marcus Peixoto e Helly Batista. Que eles continuem, com a generosidade que os caracterizava, a nos apoiar e incentivar, lá de cima.

 

Dia Nacional da Poesia

Dia Nacional da Poesia

Ao contrário de outras datas comemorativas, o Dia Nacional da Poesia passa em branco na vida dos brasileiros. No Piauí, essa realidade também não é diferente. Não fossem alguns de seus abnegados admiradores, incluindo os que a produzem, ele praticamente nem seria lembrado. Metido em afazeres mais urgentes e importantes, a maioria das pessoas não liga a mínima para esse tipo de manifestação artística, considerada geralmente “inútil” e “incompreensível”. Para completar o absurdo, o próprio comércio livresco silencia totalmente, incapaz de colocar na rua uma mídia criativa e ousada de incentivo à leitura de poesia. Mas, afinal, para que ela serve de fato? Diante de indagação tão frequente, nada melhor que prestarmos atenção nestes versos do poeta Chacal: “Nós que não somos médicos psiquiatras / nem ao menos bons cristãos / nos dedicamos a salvar pessoas / que como nós / sofrem de um mal misterioso: o sufoco”.

Fora algumas ações isoladas, quem não deixou a poesia cair, em Teresina, foi a Sociedade dos Poetas Por Vir, que resolveu celebrar a data com um animado sarau na Casa da Cultura, na última quarta-feira, para onde acorreram muitos dos amantes da poesia. A data de 14 de março é uma homenagem, como todos sabem, ao dia de nascimento do grande Castro Alves, poeta baiano engajado nas lutas políticas e sociais da sua época, bem como cultivador de um lirismo amoroso e sensual. Embora ainda restrito a poucos, ultimamente a poesia vem alargando seu público leitor, sobretudo depois dos saraus literários que pipocam no Brasil inteiro. Em nossa capital, a título de ilustração, destacamos os do Élio Ferreira, Cineas Santos, João Carvalho, Academia Onírica e o dos estudantes citados acima, todos imbuídos do mesmo propósito que “a poesia”, abraçando a tese do nosso talentoso William Soares, “não resolve / mas revolve”.

Pode até ser “inútil” a poesia, como querem alguns, mas que ela proporciona um bem danado na vida da gente, não resta dúvida. Aliás, nunca devemos esquecer que todas as outras manifestações artísticas se originam dela. Daí encontrarmos sua presença num filme inesquecível como “Cinema Paradiso”, do cineasta italiano Giuseppe Tornatore; no maravilhoso quadro “Abaporu”, da pintora paulista Tarsila do Amaral, tela que inspirou os modernistas de 22; no belíssimo registro “Beijo no Hôtel de Ville”, do renomado fotógrafo francês Robert Doisneau; na magnífica obra arquitetônica de Antoni Gaudí, mestre espanhol que resgata criativamente as imagens medievais; na sensacional música “Yesterday”, do genial quarteto de Liverpol. Bom é saber também que para ser poeta, no sentido amplo do termo, não é necessário complicar as coisas, mas apenas seguir o sábio conselho de Patativa do Assaré: “Pra gente aqui ser poeta/ Não precisa professor./ Basta vê no mês de maio/ Um poema em cada gaio/ Um verso em cada fulô”.

Agora façamos a louvação, num ato de reverência e gratidão, dos poetas que tornam a vida suportável e mais interessante, a exemplo de Manuel Bandeira, com seu lirismo terno e comovente. Não esqueçamos também Gregório de Matos, a demolidora sátira de versos contra os desmandos na Bahia. A paixão desenfreada pelo Piauí, em especial por Amarante, do inigualável Da Costa e Silva. A concisão vocabular e a denúncia social de João Cabral de Melo Neto. A ironia fina e o questionamento existencial de Carlos Drummond de Andrade, o mais consagrado dos poetas brasileiros. A postura sempre desafiadora de Torquato Neto, o nosso querido “Anjo torto”. A poesia sugestiva e musical de Cecília Meireles, com textos que tocam fundo a alma da gente. Sem falar dos temas nada “poéticos” de Augusto dos Anjos, o mau gosto transformado em poesia da mais alta qualidade. Enfim, Vinicius de Moraes, com seu amor eterno pelas mulheres, lindas, cheias de graça e, acima de tudo, despertadoras de desejos inconfessáveis. Viva a poesia, hoje e eternamente.

Centenário de Nélson Rodrigues

Wellington Soares - Arquivo FQ

Quando indagam sobre os critérios que levam alguém a ser considerado um grande escritor, geralmente respondo que o tempo, dentre outros, é o mais confiável de todos. Explico: caso um autor continue a ser lembrado depois de ter partido há vários anos, é sinal que a sua obra tem substância e não foi produzida à toa. Nelson Rodrigues, nosso maior teatrólogo, é um bom exemplo disso. Nunca ele foi tão lido e comentado na vida como 2012, ano em que se comemora seu centenário de nascimento. Além de Pernambuco, sua terra natal, a celebração da data toma conta do restante do Brasil, com os amantes do teatro e da boa literatura lhe rendendo justa e merecida homenagem. Até dezembro, seus fãs antigos, e os que surgem a cada momento, poderão matar saudade com a leitura de títulos reeditados e peças remontadas.

Que ninguém se iluda, porém, que vai amá-lo numa primeira leitura. Ao contrário, estranheza e revolta são os sentimentos que brotam de imediato. Afinal, Nelson Rodrigues não se propôs a mascarar a realidade, mas pintá-la nua e cruamente, com enfoque especial no ser humano, tema privilegiado em sua vasta obra. Não sendo diferente dos demais leitores, passei também por esse constrangimento ao ler O beijo no asfalto, uma de suas tragédias mais polêmicas. A história, que se passa no Rio, choca o leitor desde o começo: atendendo ao pedido de um jovem moribundo, Arandir se vê obrigado a beijá-lo na frente de todos, inclusive de um repórter de jornal sensacionalista, que estampa a foto na primeira página da manhã seguinte. Incompreendido no inocente gesto, ele acaba expulso de casa por Selminha e, depois, assassinado pelo sogro. Motivo: o velho, tomado por um ciúme doentio, não aceitava que Arandir houvesse beijado outro homem, e não ele.

Como visgo, os textos de Nelson Rodrigues nos mantêm preso desde o primeiro instante. Difícil é querer a liberdade depois de tamanho impacto e encantamento. Sua obra compreende dezessete peças de teatro, um romance e oito folhetins (seis assinados por “Suzana Flag”, um por “Myrna” e um com o seu próprio nome). Um grande número deles adaptado para o cinema e a televisão, como sempre despertando amor e ódio entre as pessoas, sobretudo ao abordar temas nada convencionais do tipo incesto, taras sexuais, adultérios e perversões comportamentais. Daí se compreender o epíteto de “O anjo pornográfico” recebido dos críticos e admiradores. Marco renovador da dramaturgia nacional, Vestido de noiva, peça de caráter psicológico, ainda hoje mexe profundamente com o imaginário cultural do nosso “respeitado” público.

Se como teatrólogo foi genial, inigualável se tornou como frasista, capaz de demolir arraigados valores perpetuados ao longo de nossa existência. Relembrar algumas de suas tiradas é uma forma de mantê-lo vivo entre nós, bem como de homenageá-lo em data tão significativa.

“Nenhuma mulher trai por amor ou desamor. O que há é o apelo milenar, a nostalgia da prostituta, que existe ainda na mais pura”.

“Todos nós somos mais ou menos infelizes. As angústias estão crispadas dentro de nós como víboras”.

“O amigo trai na primeira esquina. Ao passo que o inimigo não trai nunca. O inimigo é fiel. O inimigo é o que vai cuspir na cova da gente”.

“Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação”.

“Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata”.

“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda”.

“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.