Homenageados

O SALIPI 2018, cujo tema é “Uma casa sem livros é um corpo sem alma” (Marco Túlio Cícero, 106-43 a.C.), homenageará o escritor, historiador e professor Arimathéa Tito Filho. Também serão relembrados o centenário do nascimento do crítico literário Antônio Cândido e de morte do poeta popular Leandro Gomes de Barros e de Olavo Bilac.

Arimathéa Tito Filho
Patrono do 16º SaLiPi

O 16º SALIPI – Salão do Livro do Piauí e o 21º Seminário Língua Viva têm como referência de homenagem mais do que justa, necessária, o escritor, jornalista e professor, Arimathéa Tito Filho, nascido em Barras (PI), em 1924 e falecido em Teresina, em 1992. Durante toda a sua vida de jornalista e escritor sempre manifestou visão crítica e severa observação da realidade.

Teresina é um dos pontos, dentro e fora da curva, da obra desse implacável cronista que a registrou em suas nuanças históricas, intelectuais, políticas, humanas, sociais. O provincianismo da cidade encontrou o seu mais dedicado e agudo olhar em textos que mesclam amor e sarcasmo num processo de representação que o tempo não supera.

Foi o mais longevo condutor da Academia Piauiense de Letras e é reconhecido como aquele que lhe deu o espaço acadêmico e o contorno geográfico definitivo. Nenhum outro presidente identificou-se tanto com a instituição que, por vezes, a metonímia do nome substituía a agremiação: a Academia é o presidente e vice versa.

O centenário da APL traz a marca de dois nomes: Lucídio Freitas, o eterno fundador, e Arimathéa Tito Filho, o seu emblemático presidente (1971 a 1992). Premiado pela Academia Brasileira de Letras com a láurea mais insigne – “Prêmio Machado de Assis”. O mais é conferir o projeto editorial arrojado e ousado do então presidente, Nélson Nery Costa, que vem de público dizer que a academia publica, no entorno, do ano de 2017 (centenário), mais de cem obras de renomados imortais que por nós são e foram conhecidos.

Teresina, meu amor (1973) é uma das obras mais conhecidas, em cuja representação de linguagem, o seu autor entregou ao leitor crítico um painel cáustico de tintas fortes de uma cidade, cujos tipos humanos identificáveis misturam-se e afastam-se: “. . . vejo-a despudorada, meninas ricas sem roupas, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria”.

A cidade “violenta, estúpida e deseducada [ … ] alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios”. O som e o chicote para dizer que nada há de mais atual do que as imagens aqui lembradas da crônica “Teresina” do livro citado. Não há texto que não mostre o seu tempo e este nosso tempo é tão pertinente quanto o do texto. O escritor imortal, o jornalista e o professor zeloso da língua de Camões juntamente com a família sintam-se sinceramente homenageados.

Luiz Romero Lima – Crítico Literário e Mestre em Teoria Literária

DADOS BIOGRÁFICOS – retirados da Revista da APL/93

Nasceu em Barras (PI) 27-10-1924.
Pais – José de Arimathéa Tito (Desembargador) e Nize Rego Tito.
Esposa — Delci Maria Ribeiro Matos Tito.
Curso Superior — Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.

VIDA ESCOLAR — Fez as primeiras letras em sua cidade, na escola da professora Honorina Tito. Em Teresina, estudou no colégio Diocesano, concluindo o Curso Clássico no antigo Liceu e o pré-jurídico no Liceu do Ceará em Fortaleza. Fez quatro anos do Curso Jurídico na Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, concluindo-o no Piauí em 1950. Primeiro lugar durante o Curso acadêmico, no Rio como no Piauí.

DADOS COMPLEMENTARES:

José de Arimathéa Tito Filho ocupava, na Academia Piauiense de Letras, a Cadeira n° 29, de Patrono Gregário Taumaturgo de Azevedo e que teve como primeiro ocupante seu pai, o Desembargador José de Arimathéa Tito. Tomou posse em janeiro de 1964, em solenidade no Clube dos Diários, sendo saudado pelo Presidente na época, acadêmico Simplício de Sousa Mendes.

Em 1971, com o falecimento de Simplício de Sousa Mendes, o acadêmico A. Tito Filho foi eleito para a presidência, na qual permaneceu por 21 anos, eleito sucessivamente por 11 mandatos.

José de Arimathéa Tito Filho teve oito filhos — do primeiro matrimônio José de Arimathéa Tito Neto, Magistrado no Piaui, Nise Rejane Tito Ribeiro do Val, Lise Mariane Tito Silva, residentes no Rio de Janeiro, Ronaldo José de Castro Tito que mora em Brasília e Gladstone José de Castro Tito, falecido em 1983, e três do segundo, realizado em 1966, com Delci Maria Ribeiro Matos Tito: Scarlett O’Hara de Matos Tito, Maureen O’Hara de Matos Tito e Kathleen O’Hara de Matos Tito.

A. Tito Filho faleceu aos 68 anos (incompletos), em Teresina, no dia 23 de junho de 1992, às 15h20min, no Hospital Getúlio Vargas, sendo velado na Primeira Igreja Batista, sepultado no Cemitério “São José”.

O Centenário de Antonio Candido

“Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável.”

Antonio Candido (1918-2017) completaria 100 anos no próximo dia 24 de julho

Antonio Candido foi uma das maiores referências intelectuais do Brasil. São de indiscutível envergadura suas contribuições para o entendimento do País, de sua literatura e do fenômeno literário. Foi um notável professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Suas aulas eram uma obra de arte. Generosa foi sua dedicação aos seus muitos alunos, como posso dar testemunho. Transformou-se no correr do tempo de sua vida numa grande presença na vida brasileira pela limpidez de sua conduta ética e pelo empenho em ser justo (uma faceta do seu ser socialista) no trato das pessoas e das situações.

Afonso Arinos, no depoimento que deu para Esboço de Figura, livro que organizei para celebrar os 60 anos de Antonio Candido, qualificou-o como um grande mestre que amadureceu no exercício de sua mestria por “uma serenidade sem frieza, uma tolerância sem concessão, uma firmeza sem rusticidade”.

O estilo da sua prosa, no seu jogo entre ordem e movimento, é uma expressão da acuidade e qualidade de sua visão. Da mesma maneira, num outro registro, o coloquial de sua encantadora conversa sempre bem temperada de “estórias” e reminiscências.

Esboço de Figura abriga notável estudo de Fernando Henrique Cardoso, A fome e a crença (sobre os parceiros do Rio Bonito), que dá a medida da contribuição de Antonio Candido para a ciência social brasileira, a cujo ensino se dedicou nas etapas iniciais de sua carreira na USP. Abriga um igualmente notável estudo de José Guilherme Merquior, O texto como resultado, altamente esclarecedor da teoria e da prática crítica de Antonio Candido.

Formação da Literatura Brasileira (1959) é, como aponta Roberto Schwarz, um livro de sete fôlegos. Resulta da maneira como Antonio Candido, ao examinar a interação da obra com autor e público, explica, com o domínio da literatura comparada e do contraponto Iluminismo/Romantismo, a construção do sistema literário brasileiro e o seu papel na elaboração da consciência nacional no século 19. É uma obra que reúne os três atributos de um clássico, identificados por Norberto Bobbio: 1) é uma interpretação autêntica das preocupações com a formação do Brasil dos anos 50, o tempo histórico de sua redação conclusiva; 2) mantém uma atualidade que instiga sua constante releitura; 3) contém conceitos, categorias e interpretações de que nos continuamos a valer – decorridos quase 50 anos de sua publicação – para apreender o Brasil e a especificidade de sua literatura, de suas obras e seus autores nos momentos decisivos que identificou e estudou.

Iniciação à Literatura Brasileira (1997) é uma primorosa e atualizada síntese das ideias de Formação, que alcança o decênio de 1950 com uma análise do sistema literário consolidado.

Antonio Candido estudou com flexibilidade metodológica, em Literatura e Sociedade (1965), como o contexto socioeconômico externo se transforma no criativo contexto interno do texto literário. Analisa a multiplicidade dos estímulos à criação literária para apontar como levam à especificidade de cada obra. É a sua “paixão pelo concreto” que dele faz um crítico de vertentes, sempre atento à natureza de cada obra. Textos translúcidos, que parecem reproduzir a realidade como os romances de Zola e de Aloísio de Azevedo, exigem uma aproximação distinta da de textos opacos como os de Kafka e de Buzzati. É o que desvenda no seu paradigmático O Discurso e a Cidade (1993).
O discernimento de matizes de Antonio Candido é fruto do seu senso da complexidade das coisas. Está presente, por exemplo, em Tese e Antítese (1963), em que examina o estilhaçamento do ser e a dimensão fecunda da relação ordem/desordem – um dos seus temas recorrentes – no plano individual do Homo fictus através da análise das obras de Alexandre Dumas pai, Joseph Conrad, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

O Direito à Literatura, palestra dada em 1988 na Faculdade de Direito da USP, em curso organizado pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, hoje recolhida na quarta edição, por ele revista e reorganizada, de Vários Escritos (2004), tem como característica uma reflexão muito própria sobre o nexo entre o Direito e a literatura. Assinala uma confluência entre a sua obra e a sua passagem pelo Direito, como destaquei em meu Antonio Candido e a Faculdade de Direito, inserido no volume dedicado a celebrar os seus 90 anos.

No seu estudo, Antonio Candido, na análise do papel da afirmação histórica dos direitos humanos, fundamenta o direito à fruição generalizada da criação ficcional e artística como um bem incompressível por ser uma necessidade básica. Realça que, “assim como não é possível haver equilíbrio próprio sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem literatura”. A literatura como “o sonho acordado das civilizações” é um fator indispensável de humanização e “confirma o homem na sua humanidade” ao trazer, “como uma atividade sem sossego”, livremente, “o que chamamos o bem e o que chamamos o mal”.

Relembrei algumas facetas do percurso de um grande intelectual que foi um grande homem sem ter tido espaço para realçar a argúcia iluminadora da sua leitura de poesia – a de quem pioneiramente, em 1943, identificou a importância de João Cabral.

“A morte, sempre esperada, é sempre inesperada”, dizia Octavio Paz. Os italianos têm uma aguda fórmula para expressar o luto do falecimento: “È mancato all’affetto dei suoi cari”. É o que tantos estão sentindo. É o que sinto, profundamente, com afeição e admiração, como seu antigo e sempre aluno, amigo e compadre, pois Antonio Candido foi, como disse Guimarães Rosa – na dedicatória de Primeiras Estórias, a ele enviado, “melhor do que as palavras possíveis da gente”.

(Fonte: http://www.academia.org.br/artigos/antonio-candido-1918-2017 / Folha de São Paulo, 21/05/2017)

Cem anos da morte de Olavo Bilac:
O Príncipe dos poetas Brasileiros

Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac), jornalista, poeta, inspetor de ensino, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 16 de dezembro de 1865, e faleceu, na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a cadeira nº. 15, que tem como patrono Gonçalves Dias.
Eram seus pais o Dr. Braz Martins dos Guimarães Bilac e D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac. Após os estudos primários e secundários, matriculou-se na Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, mas desistiu no 4º. ano. Tentou, a seguir, o curso de Direito em São Paulo, mas não passou do primeiro ano. Dedicou-se desde cedo ao jornalismo e à literatura. Teve intensa participação na política e em campanhas cívicas, das quais a mais famosa foi em favor do serviço militar obrigatório. Fundou vários jornais, de vida mais ou menos efêmera, como A Cigarra, O Meio, A Rua. Na seção “A Semana” da Gazeta de Notícias, substituiu Machado de Assis, trabalhando ali durante anos. É o autor da letra do Hino à Bandeira.

Fazendo jornalismo político nos começos da República, foi um dos perseguidos por Floriano Peixoto. Teve que se esconder em Minas Gerais, quando frequentou a casa de Afonso Arinos em Ouro Preto. No regresso ao Rio, foi preso. Em 1891, foi nomeado oficial da Secretaria do Interior do Estado do Rio. Em 1898, inspetor escolar do Distrito Federal, cargo em que se aposentou, pouco antes de falecer. Foi também delegado em conferências diplomáticas e, em 1907, secretário do prefeito do Distrito Federal. Em 1916, fundou a Liga de Defesa Nacional.

Sua obra poética enquadra-se no Parnasianismo, que teve na década de 1880 a sua fase mais fecunda. Embora não tenha sido o primeiro a caracterizar o movimento parnasiano, pois só em 1888 publicou Poesias, Olavo Bilac tornou-se o mais típico dos parnasianos brasileiros, ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia.

Fundindo o Parnasianismo francês e a tradição lusitana, Olavo Bilac deu preferência às formas fixas do lirismo, especialmente ao soneto. Nas duas primeiras décadas do século XX, seus sonetos de chave de ouro eram decorados e declamados em toda parte, nos saraus e salões literários comuns na época. Nas Poesias encontram-se os famosos sonetos de Via Láctea e a “Profissão de Fé”, na qual codificou o seu credo estético, que se distingue pelo culto do estilo, pela pureza da forma e da linguagem e pela simplicidade como resultado do lavor.

Ao lado do poeta lírico, há nele um poeta de tonalidade épica, de que é expressão o poema “O caçador de esmeraldas”, celebrando os feitos, a desilusão e a morte do bandeirante Fernão Dias Paes. Bilac foi, no seu tempo, um dos poetas brasileiros mais populares e mais lidos do país, tendo sido eleito o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, no concurso que a revista Fon-Fon lançou em 1º. de março de 1913. Alguns anos mais tarde, os poetas parnasianos seriam o principal alvo do Modernismo. Apesar da reação modernista contra a sua poesia, Olavo Bilac tem lugar de destaque na literatura brasileira, como dos mais típicos e perfeitos dentro do Parnasianismo brasileiro. Foi notável conferencista, numa época de moda das conferências no Rio de Janeiro, e produziu também contos e crônicas.

(Fonte: http://www.academia.org.br/academicos/olavo-bilac/biografia)

Leandro Gomes de Barros:
Biografia à moda da casa

Leandro Gomes de Barros, paraibano nascido em 19/11/1865, na Fazenda da Melancia, no Município de Pombal, é considerado o rei dos poetas populares do seu tempo. Foi educado pela família do Padre Vicente Xavier de Farias, (1823-1907), proprietários da fazenda, e dos quais era sobrinho por parte de mãe. Em companhia da família “adotiva” mudou-se para a Vila do Teixeira, que se tornaria o berço da Literatura Popular nordestina, onde permaneceu até os 15 anos de idade tendo conhecido vários cantadores e poetas ilustres.

Do Teixeira vai para Pernambuco e fixa residência primeiramente em Jaboatão, onde morou até 1906, depois em Vitória de Santo Antão e a partir de 1907 no Recife onde viveu de aluguel em vários endereços, imprimindo a maior parte de sua obra poética no próprio prelo ou em diversas tipografias. Vale a pena transcrever o aviso no final de um poema, A Cura da Quebradeira, que demonstra suas constantes mudanças e o grande tino comercial:
“Leandro Gomes de Barros, avisa que está morando em Areias, Recife, e que remetterá pelo correio todos os folhetos de suas produções que lhe sejam pedidos”.

Sua atividade poética o obriga a viajar bastante por aqueles sertões para divulgar e vender seus poemas e tal fato é comentado por seus contemporâneos, João Martins de Ataíde e Francisco das Chagas Baptista:

“Voltando João Athayde
De Vitoria a Jaboatão
Quando chegou em Tapéra
Que saltou na estação
Encontrou Leandro Gomes
Entraram em conversação”

“Estava em Lagoa dos Carros,
O grande Chagas Batista,
Quando trouxeram-lhe à vista
Leandro Gomes de Barros,
que para comprar cigarros
tinha descido do trem (…)”

Foi um dos poucos poetas populares a viver unicamente de suas histórias rimadas, que foram centenas. Leandro versejou sobre todos os temas, sempre com muito senso de humor. Começou a escrever seus folhetos em 1889, conforme ele mesmo conta nesta sextilha de A Mulher Roubada, publicada no Recife em 1907:

Leitores peço-lhes desculpa
se a obra não for de agrado
Sou um poeta sem força
o tempo me tem estragado,
escrevo há 18 anos
Tenho razão de estar cansado.

Caboclo entroncado, de bigode espesso, alegre, bom contador de anedotas: este é o retrato que dele faz Câmara Cascudo em Vaqueiros e Cantadores. Casou-se com Venustiniana Eulália de Barros antes de 1889 e teve quatro filhos: Rachel Aleixo de Barros Lima, Erodildes (Didi), Julieta e Esaú Eloy, que seguiu a carreira militar tendo participado da Coluna Prestes e da Revolução de 1924. De Leandro só possuímos fotos de meio-busto e uma de corpo inteiro, que colocava em seus folhetos para provar a autoria de seus versos; de sua família, o que ficou para a história foram os folhetos assinados com caligrafia caprichada, sobretudo os de Rachel.

Na crônica intitulada Leandro, O Poeta, publicada no Jornal do Brasil em 9 de setembro de 1976, Carlos Drummond de Andrade o chamou de “Príncipe dos Poetas” e assinala:

“Não foi príncipe dos poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil em estado puro”. E diz mais: “Leandro foi o grande consolador e animador de seus compatrícios, aos quais servia sonho e sátira, passando em revista acontecimentos fabulosos e cenas do dia-a-dia, falando-lhes tanto do boi misterioso, filho da vaca feiticeira, que não era outro senão o demo, como do real e presente Antônio Silvino, êmulo de Lampião”.

Mas não foi só Drummond, nosso poeta maior, que reconheceria em Leandro a majestade dos versos. Em vida era tratado por seus colegas como o poeta do povo, o primeiro sem segundo (Athayde) e verdadeiro Catulo da Paixão cearense daqueles ásperos rincões (Gustavo Barroso).

Após o seu falecimento, em 4 de março de 1918, no Recife, o poeta e editor João Martins de Ataíde, em seu folheto A Pranteada Morte de Leandro Gomes de Barros, escreveu:

Poeta como Leandro
Inda o Brasil não criou
Por ser um dos escritores
Que mais livros registrou
Canções não se sabe quantas
Foram seiscentas e tanta
As obras que publicou.

(Fonte: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/leandro_biografia.html#)

Dez anos sem Dobal

Há exatos dez anos (22/05/08), H. Dobal saiu de cena. Dizer que se calou uma das vozes mais consequentes da poesia lírica de língua portuguesa é fazer chover no molhado. Quem conhece a obra dele sabe.

Falemos de outra faceta do poeta. Dobal era um cidadão delicado, suave, quase tímido. Não suportava ser o centro das atenções. Mas, quando estava entre amigos, contava causos muito engraçados. Arrematava sempre com o fecho: “Depois, dizem que eu invento”. e ria. Fiscal do Tesouro, Dobal percorria os sertões mais remotos do Piauí realizando o seu trabalho. Um dia, chegou a um lugarejo miserável, onde o tempo enovelou-se para dormir sossegado. O lugar nem tinha nome; era apenas um punhado de casas de palha. No meio de um descampado, uma latada um pouco mais ampla. Na entrada, uma placa vistosa: “RESTAURANTE ORIENTAL”. Dobal entrou e perguntou o que havia para comer. O dono da birosca respondeu: “Espinhaço de bode, maxixe e pirão”. Uma boa comida sertaneja. O poeta comeu, aprovou, mas não se conteve:

– Aqui se vende comida oriental?
– Não, respondeu o cidadão.
– O senhor tem parentes orientais?
– Não, senhor.
– Então, qual a razão do nome do seu estabelecimento?
– Uma promessa, respondeu o cidadão, com um suspiro profundo.
-Promessa? O senhor poderia explicar?
O cidadão não se fez de rogado:
– Doutor, eu e minha família estávamos passando muito baixo. Fui pra São Paulo procurar um refrigério. Lá, as coisas ficaram pior. Foi então que me apeguei com Nossa Senhora da Conceição e pedi que ela me orientasse. Ela me orientou para eu abrir este negócio aqui. Então, Restaurante Oriental.
Dobal sorria e afirmava: “Depois, dizem que invento”.

(Cineas Santos)